O primeiro canto
quarta-feira, 25 de outubro de 2017
segunda-feira, 16 de outubro de 2017
"Minhas Leis não são suas Leis. As minhas são, foram e sempre serão"
A Lei Divina (Thémis) e a Lei dos
Homens (Diké) em Antígona
Por Luciene Félix
Foi-nos legado pelo tragediógrafo grego
Sófocles (496 a.C.), em sua obra "Antígona" (441 a.C.) uma abordagem
mítica e lógica, mitológica, de um terrível dilema humano que sempre tomará de
assalto nossa Alma, colocando-nos diante de questões insolucionáveis. O fato do
mito ser atemporal não nos surpreende pois a sua principal característica é a inestoriabilidade,
ou seja, um processo contínuo, um incessante vir-a-ser.
A sophrosyne (nada em excesso)
que nos foi tão cara no artigo anterior sobre a polêmica das charges, a justa
medida, o métron grego não dá conta de evitar o embate entre Thémis e Diké quando
estas duas concepções de justiça se opõem no interior da psiquê e coagem o
homem obrigando-o a tomar uma posição inexoravelmente excludente.
Este drama eterno será vivido com toda
intensidade e paixão pela marcada filha de Édipo, neta do amaldiçoado
transgressor Laio, filho de Lábdaco: a nobre Antígona.
Retomemos a tragédia Sofocliana de Édipo
Rei que, ao ser apresentada em 430 a.C. desbancou o veterano Ésquilo.
Marcado, pois portador da hamartía - marca da maldição familiar - dos
Labdácias, Édipo é um inocente herói trágico. Sobre ele paira o justificável e
legítimo argumento de ignorar a verdade sobre suas origens e nada poder fazer
para fugir de seu inescapável destino já profetizado pelo oráculo de Apollo em
Delfos: matar o pai e desposar a mãe, incorrendo numa irreversível transgressão
a ordem (kosmós) da natureza (physis). Trata-se de uma aberração pois uma vez
marido da própria mãe, tornou-se assim irmão e pai de seus filhos. No
desenrolar de toda tragédia, Édipo não suporta a revelação de tamanha desgraça
a seu espírito, diante da imensidão de seu infortúnio, fura os próprios olhos e
retira-se da cidade. Filha zelosa e solidária, Antígona o acompanha. Pobre
Antígona. Singular Antígona. Possui ainda mais uma irmã, a ponderada e razoável
Ismene e dois irmãos: Polinices e Eteócles.
Amaldiçoados pelo próprio pai Édipo, a
quem rejeitaram, a morrer um pelas mãos do outro, Etéocles e Polinices, irmãos
de Antígona, rivalizam-se: Etéocles à favor do tio, Creonte e Polinices,
pleiteando reaver o trono que fora de seu pai, coloca-se contra Tebas. Num
sangrento fratricídio, extingem-se reciprocamente.
Creonte, agora Rei de Tebas, personifica
a tirania quando das leis escritas se apropria em benefício próprio
que é o de manter-se no poder. Justifica e legitima seus atos quando prende-se
ferreamente a "manipulável" lei dos homens (Diké): a um desertor,
traidor (Polinices), não se permite sepultamento. Isso significa ter seu
cadáver jogado aos cães, dilacerado por feras carniceiras e aves de rapina.
Por Zeus, muito mais preocupante que a
morte em si, pois esta é certa, é a honra da sepultura, o justo merecimento de,
tendo sido bem-quisto neste mundo, obter a glória de ser bem recebido no outro.
Certeza de poder ter um funeral condigno, pagar a moeda ao barqueiro Caronte,
fazer a travessia pelo Léthe, o rio do esquecimento, chegar ao insondável reino
dos mortos, onde Plutão e Perséfone imperam no misterioso Hades.
Onde faz morada o embate entre Thémis e Diké?
O conflito jaz em olvidar o telos (propósito, finalidade) da lei em
prol da letra que beneficia a quem a aplica, mas "a letra não está acima
do espírito da lei dos homens". Quando se confrontam a Lei dos Deuses e a
Lei dos Homens? Quando não se atinge sua consonância, quando esta última
impõe-se desconsiderando a primeira. Dito de outra forma, dá-se assim, quando
na terra não é como no céu.
Sobre a conseqüência desta deflagrada
polêmica muitos filósofos do direito se debruçaram (e debruçarão!). Na verdade
todo e qualquer mortal. Estas são questões fundamentais para o espírito humano:
como estabelecer qual é o limite da autoridade do Estado, do direito positivo,
sobre as ditas leis do direito natural, as leis não escritas? Com quem está a
razão? Polinices em lutar por reaver o trono deixado por seu pai, algo que
julga ser seu por direito divino (Thémis) ou Creonte que agora Rei deve aplicar
a Lei dos homens (Diké) a qualquer inimigo de Tebas? Quando a razão não dá
conta de tudo, mais necessário se faz que sejamos razoáveis. Ponderemos esta
instância divina, de Thémis.
O que se enfrenta quando se opta por
seguir Thémis ao invés de sujeitar-se ao cumprimento das normas e dos deveres
impostos pelos reis Creontes? Qualquer que seja a opção há um preço a se pagar.
Antígona sabe que, pela sagrada
consanguinidade, deve enterrar Polinices, evitando que abutres disputem-lhe as
carnes. Sobre a Lei de Zeus, observa: "... não é de hoje, não é de ontem,
é desde os tempos mais remotos que elas vigem, sem que ninguém possa dizer
quando surgiram".
O drama de Antígona não consiste na
dúvida sobre qual lei seguir. Ela possui envergadura demais para não fugir às
consequências, pois como nos diz Sófocles "evidencia-se a linhagem da
donzela, indômita, de pai indômito: não cede nem no momento de enfrentar a
adversidade".
Todo corajoso herói domina phobos (medo)
- considerado pelos gregos um temido "ente", quase real, que acomete
e faz debandar aterrorizados guerreiros, outrora bravos e valentes, diante da
batalha. Antígona, destemida, ousada e indomável, atreve-se a desafiar a
tirania de seu tio Creonte e mesmo ciente da pena de morte que seu ato
implicaria, como observa a sua temerosa irmã Ismene: "ferve diante do que
faz gelar". Explicitando a recusa em obedecer as Leis civis.
O que se enfrenta quando se opta por
seguir irrefletidamente a letra da lei ao invés de ponderar se a mesma é fiel
ao seu espírito, ou se é mesmo compatível com os harmoniosos desígnios da
justiça divina?
Creonte mantém-se irredutível quanto a
pena de Polinices. E mais, com o enfrentamento de Antígona, torna-a baluarte de
sua intransigência. Sem sucesso, o velho sacerdote, o mântico cego Tirésias
alerta para o custo da teimosia em Creonte: "... os homens todos erram mas
quem comete um erro não é insensato, nem sofre pelo mal que fez, se o remedia
em vez de preferir mostrar-se inabalável: de fato, a intransigência leva à
estupidez".
Característica da tragédia é que, a
partir de determinados atos consumados, todas as possibilidades que se
apresentem trarão consequências terríveis. Uma vez que Antígona foi condenada a
morrer encerrada viva numa gruta, seu apaixonado pretendente, Hêmon, filho de
Creonte, desconsolado com a morte da amada e furioso com o crime de seu pai,
suicida-se. Eurídice, sua mãe, dilacerada pela morte do filho, apunhalando-se
no fígado, também dá fim à própria vida.
Creonte cai em si diante da irreflexão
na aplicação da lei. Diz o coro: "Destaca-se a prudência, sobremodo como a
primeira condição para a felicidade. Não se deve ofender aos deuses em
nada. A desmedida empáfia nas palavras reverte em desmedidos golpes contra
os soberbos que, já na velhice, aprendem afinal prudência".
Se pela insolência, nossa heroína pagou
com sua própria vida, a dor de Creonte, já profundamente perturbado, acometido
pela perseguição das implacáveis Fúrias, as Erínias (a vingança) é também
consternadora: "Ai de mim! O autor destas desgraças sou eu... não sou mais
nada! Venha, aconteça a última das mortes - a minha! - e traga o meu dia final,
o mais feliz de todos! Venha, pois não quero viver nem mais um dia!... Levem
para bem longe este demente que sem querer te assassinou, meu filho, e a ti
também, mulher! Ai de mim! Não sei qual dos dois mortos devo olhar nem para
onde devo encaminhar-me!".
O desfecho de todo este drama é
concluído com a redenção final da maldição familiar dos Labdácias por Antígona.
Assim proclama o coro:
"Tu te lançaste aos últimos
extremos
de atrevimento e te precipitaste
de encontro ao trono onde a justiça
excelsa
tem sede, minha filha; pode ser
que na presente provação expies
pecados cometidos por teu
pai."
Ainda que proferidos na longínqua aurora dos tempos, até hoje ouvimos o altivo e desafiador brado da heroína e este alicerça nossas convicções interiores contra as ordens de um poder arbitrário, desmedido, mesmo que revestido de todas as formas de legalidade. No âmago de nossas almas ecoa o que Zeus sussurrou no coração de Antígona: "Minhas Leis não são suas Leis. As minhas são, foram e sempre serão".
Ausência, Carlos Drummond de Andrade
Ausência
Por
muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus
[braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond de Andrade, in 'O Corpo'
quarta-feira, 11 de outubro de 2017
Funes, o Memorioso - J. L. Borges
Funes, o Memorioso
Jorge Luis Borges
Recordo-o
(não tenho o direito de pronunciar esse verbo sagrado, apenas um homem na terra
teve o direito e tal homem está morto) com uma obscura passiflórea na
mão, vendo-a como ninguém jamais a vira, ainda que a contemplasse do crepúsculo
do dia até o da noite, uma vida inteira. Recordo-o, o rosto taciturno e indianizado e
singularmente remoto, por trás do cigarro. Recordo (creio) suas mãos
delicadas de trançador. Recordo próximo dessas mãos um mate, com as armas da
Banda Oriental, recordo na janela da casa uma esteira amarela, com uma vaga
paisagem lacustre. Recordo claramente a sua voz; a voz pausada, ressentida e
nasal de orillero antigo, sem os assobios italianos de agora. Mais de
três vezes não o vi; a última, em 1887... Parece-me muito feliz o projeto de
que todos aqueles que o conheceram escrevam sobre ele; meu testemunho será por
certo o mais breve e sem dúvida o mais pobre, porém não o menos imparcial do
volume que vós editareis. A minha deplorável condição de argentino impedir-me-á
de incorrer no ditirambo - gênero obrigatório no Uruguai; quando o
tema é um uruguaio. Literato, cajetilla, porteño. Funes não
disse essas palavras injuriosas, mas de um modo suficiente me consta que eu
representava para ele tais desventuras. Pedro Leandro Ipuche escreveu
que Funes era um precursor dos super-homens; "Um Zaratustra cimarrón e vernáculo";
não o discuto, mas não se deve esquecer que era também natural de Fray Bentos,
com certas limitações incuráveis.
A
minha primeira lembrança de Funes é muito clara. Vejo-o em um
entardecer de Março ou Fevereiro do ano de 1884. Meu pai, nesse ano, levara-me
a veranear em Fray Bentos. Voltava com meu primo Bernardo Haedo da
estância de San Francisco. Voltávamos cantando, a cavalo, e essa não
era a única circunstância da minha felicidade. Após um dia abafado, uma enorme
tempestade cor cinza escura havia escondido o céu. Alentava-me o vento
Sul, já enlouqueciam-se as árvores; eu tinha o temor (a esperança) de
que nos surpreenderia em um descampado a água elemental. Apostamos uma
espécie de corrida com a tempestade. Entramos em um desfiladeiro que se
aprofundava entre duas veredas altíssimas de tijolo. Escurecera repentinamente;
ouvi passos rápidos e quase secretos no alto; levantei os olhos e vi um rapaz
que corria pela vereda estreita e esburacada como que por uma parede estreita e
esburacada. Recordo a bombacha, as alpargatas, recordo o cigarro no rosto
duro, contra a densa nuvem já sem limites. Bernardo gritou-lhe imprevisivelmente: Que
horas são, Ireneo? Sem consultar o céu, sem deter-se, o outro
respondeu: Faltam quatro minutos para as oito, jovem Bernardo Juan
Francisco. A voz era aguda, zombeteira.
Sou
tão distraído que o diálogo a que acabo de me referir não teria chamado a minha
atenção se não o tivesse enfatizado o meu primo, a quem estimulavam (creio)
certo orgulho local, e o desejo de mostrar-se indiferente à réplica tripartite
do outro.
Disse-me
que o rapaz do desfiladeiro era um tal Ireneo Funes, conhecido por
algumas peculiaridades como a de não se dar com ninguém e a de saber sempre a
hora, como um relógio. Complementou dizendo que era filho de uma passadeira do
povo, Maria Clementina Funes, e que alguns diziam que seu pai era um
médico de saladeiro, um inglês O’Connor, e outros um domador ou rastreador do
departamento de Salto. Vivia com a sua mãe, na curva da quinta dos Laureles.
Nos
anos de 1885 e 1886 veraneamos na cidade de Montevideo. Em 1887 voltei a Fray Bentos.
Perguntei, como é natural, por todos os conhecidos e, finalmente, pelo "cronométrico Funes".
Responderam-me que um redomão o havia derrubado na estância de San Francisco,
e que havia se tornado paralítico, sem esperança. Recordo a sensação de
incômoda magia que a notícia despertou-me: a única vez que eu o vi, vínhamos a
cavalo de San Francisco e ele andava em um lugar alto; o fato, na
boca do meu primo Bernardo, tinha muito de sonho elaborado com elementos
anteriores. Disseram-me que não se movia da cama, os olhos repousados na
figueira do fundo ou em uma teia de aranha. Ao entardecer, permitia que o
levassem para perto da janela. Levava a arrogância ao ponto de simular
que era benéfico o golpe que o havia fulminado... Duas vezes o vi atrás da
relha, que toscamente enfatizava a sua condição de eterno prisioneiro; uma,
imóvel, com os olhos cerrados; outra, imóvel também, absorto na contemplação de
um aromático galho de santonina.
Não
sem um certo orgulho havia iniciado naquele tempo o estudo metódico do latim. A
minha mala incluía o De viris illustribus de Lhamond, o Thesaurus de Quicherat,
os comentários de Júlio César e um volume ímpar da Naturalis historia de
Plínio, que excedia (e continua excedendo) as minhas modestas virtudes de
latinista. Tudo se propaga em um povoado; Ireneo, em seu rancho das orillas,
não tardou em enteirar-se da chegada desses livros anômalos.
Dirigiu-me uma carta florida e cerimoniosa, na qual recordava no encontro,
desditosamente fugaz, "do dia 7 de Fevereiro de 1884",
ponderava os gloriosos serviços que Don Gregorio Haedo, meu tio,
falecido nesse mesmo ano, "havia prestado às duas pátrias na valorosa
jornada deItuzaingó", e me solicitava o empréstimo de qualquer dos
volumes, acompanhado de um dicionário "para a boa intelecção do texto
original, pois todavia ignoro o latim". Prometia devolvê-los em bom
estado, quase imediatamente. A letra era perfeita, muito perfilada; a ortografia,
do tipo que Andrés Bello preconizou: i por y, j por g.
A princípio, suspeitei naturalmente tratar-se de uma zombaria. Meus primos
asseguraram que não, que eram coisas de Ireneo. Não sabia se atribuía ao
atrevimento, à ignorância ou à estupidez a idéia de que o árduo latim não
requeresse mais instrumento do que um dicionário; para desencorajá-lo
completamente enviei-lhe o Gradus ad parnassum de Quicherat e
a obra de Plínio.
No
dia 14 de Fevereiro telegrafaram-me de Buenos Aires que voltasse imediatamente,
pois meu pai não estava "nada bem". Deus me perdôe; o prestígio
de ser o destinatário de um telegrama urgente, o desejo de comunicar a toda Fray Bentos
a contradição entre a forma negativa da notícia e o peremptório advérbio, a
tentação de dramatizar a minha dor, fingindo um estoicismo viril, talvez distraíram-me de
toda a possibilidade de dor. Ao fazer a mala, notei que me faltavam o Gradus e o
primeiro tomo da Naturalis historia. O "Saturno" sarpava no
dia seguinte, pela manhã; essa noite, depois da janta, dirigi-me à casa de Funes.
Assombrou-me que a noite fora não menos pesada que o dia.
No
humilde rancho, a mãe de Funes recebeu-me.
Disse-me
que Ireneo estava no quarto dos fundos e que não me estranhasse
encontrá-lo às escuras, pois Ireneo preferia passar as horas mortas
sem acender a vela. Atrevessei o pátio de lajota, o pequeno corredor;
cheguei ao segundo pátio. Havia uma parreira; a escuridão pareceu-me total.
Ouvi prontamente a voz alta e zombeteira de Ireneo. Essa voz falava em
latim; essa voz (que vinha das trevas) articulava com moroso deleite um
discurso, ou prece, ou encantamento. Ressoavam as sílabas romanas no pátio de
terra; o meu temor as tomava por indecifráveis, intermináveis; depois, no
enorme diálogo dessa noite, soube que formavam o primeiro parágrafo do 24o capítulo
do 7o livro da Naturalis historia. O tema desse capítulo é a
memória: as últimas palavras foram ut nihil non iisdem verbis redderetur auditum.
Sem
a menor mudança de voz, Ireneo disse-me o que se passara. Estava na
cama, funmando. Parece-me que não vi o seu rosto até a aurora; creio
lembrar-me da brasa momentânea do cigarro. O quarto exalava um vago odor de
umidade. Sentei-me, repeti a estória do telegrama e da enfermidade de meu pai.
Chego,
agora, ao ponto mais difícil do meu relato. Este (é bem verdade que já o sabe o
leitor) não tem outro argumento senão esse diálogo de há já meio século. Não
tratarei de reproduzir as suas palavras, irrecuperáveis agora. Prefiro resumir
com veracidade as muitas coisas que me disse Ireneo. O estilo indireto é
remoto e débil; eu sei que sacrifico a eficácia do meu relato; que os meus
leitores imaginem os períodos entrecortados que me abrumaram essa noite.
Ireneo começou
por enumerar, em latim e espanhol, os casos de memória prodigiosa registrados
pela Naturalis historia: Ciro, rei dos persas, que sabia chamar pelo
nome todos os soldados de seus exércitos; Metríadates e Eupator,
que administrava a justiça dos 22 idiomas de seu império; Simónides,
inventor da mnemotecnia; Metrodoro, que professava a arte de repetir
com fidelidade o escutado de uma só vez. Com evidente boa fé maravilhou-se de
que tais casos maravilharam. Disse-me que antes daquela tarde chuvosa em que o azulego o
derrubou, ele havia sido o que são todos os cristãos; um cego, um surdo, um
tolo, um desmemoriado. (Tratei de recordar-lhe a percepção exata do tempo, a
sua memória de nomes próprios; não me fez caso.) Dezenove anos havia vivido
como quem sonha: olhava sem ver, ouvia sem ouvir, esquecia-se de tudo, de quase
tudo. Ao cair, perdeu o conhecimento; quando or ecobrou, o presente
era quase intolerável de tão rico e tão nítido, e também as memórias mais
antigas e mais triviais. Pouco depois averiguou que estava paralítico. Fato
pouco o interessou. Pensou (sentiu) que a imobilidade era um preço mínimo.
Agora a sua percepção e sua memória eram infalíveis.
Num
rápido olhar, nós percebemos três taças em uma mesa; Funes, todos os
brotos e cachos e frutas que se encontravam em uma parreira. Sabia as formas
das nuvens austrais do amanhecer de trinta de abril de 1882 e podia compará-los
na lembrança às dobras de um livro em pasta espanhola que só havia olhado uma
vez e às linhas da espuma que um remo levantou no Rio Negro na véspera da ação
de Quebrado. Essas lembranças não eram simples; cada imagem visual estava
ligada a sensações musculares, térmicas, etc. Podia reconstruir todos os
sonhos, todos os entresonhos. Duas ou três vezes havia reconstruído um dia
inteiro, não havia jamais duvidado, mas cada reconstrução havia requerido um
dia inteiro. Disse-me: Mais lembranças tenho eu do que todos os
homens tiveram desde que o mundo é mundo. E também: Meus sonhos são como a
vossa vigília. E também, até a aurora; Minha memória, senhor, é como
depósito de lixo. Uma circunferência em um quadro-negro, um triângulo
retângulo; um losango, são formas que podemos intuir plenamente; o mesmo
se passava a Ireneo com as tempestuosas crinas de um potro, com
uma ponta de gado em um coxilha, com o fogo mutante e com a cinza inumerável,
com as muitas faces de um morto em um grande velório. Não sei quantas estrelas
via no céu.
Essas
coisas me disse; nem então nem depois coloquei-as em dúvida. Naquele tempo não
havia cinematógrafos nem fonógrafos; é, no entanto, verossímil e até incrível
que ninguém fizera um experimento com Funes. O cérto é que
vivemos postergando todo o postergável; talvez todos saibamos pronfundamente que
somos imortais e que mais cedo ou mais tarde, todo homem fará todas as coisas e
saberá tudo.
A
voz de Funes, vinda da escuridão, seguia falando.
Disse-me
que em 1886 havia elaborado um sistema original de numeração e que em muito
poucos dias havia ultrapassado vinte e quatro mil. Não o havia escrito, porque
o pensado uma só vez já não podia desvanecer-lhe. Seu primeiro estímulo, creio,
foi o descontentamento de que os trinta e três uruguaios requeressem dois
signos e três palavras, em lugar de uma só palavra e um só signo. Aplicou logo
esse desparatado princípio aos outros números. Em lugar de sete mil e
treze, dizia (por exemplo)Máximo Pérez; em lugar de sete mil e catorze, A
Ferrovia; outros números eram Luis Melián Lafinur, Olivar,
enxofre, os rústicos, a baleia, o gás, a caldeira, Napoleão, Agustín de Vedia. Em
lugar de quinhentos, dizia nove. Cada palavra tinha um signo particular,
uma espécie de marca; as últimas eram muito complicadas... Eu tratei de
explicar-lhe que essa rapsódia de vozes desconexas era precisamente o contrário
de um sistema de numeração. Eu lhe observei que dizer 365 era dizer três
centenas, seis dezenas, cinco unidades; análise que não existe nos
"números". O Negro Timoteo a manta de carne. Funes não
me entendeu ou não quis me entender.
Locke,
no século XVII, postulou (ou reprovou) um idioma impossível no qual cada
coisa individual, cada pedra, cada pássaro e cada ramo tivesse um nome
próprio; Funes projetou alguma vez um idioma análogo, mas o desejou
por parecer-lhe demasiado geral, demasiado ambígüo. De fato, Funes não
apenas recordava cada folha de cada árvore de cada monte, mas também cada uma
das vezes que a havia percebido ou imaginado. Resolveu reduzir cada uma de suas
jornadas pretéritas a umas setenta mil lembranças, que definiria logo por
cifras. Dissuadiram-no duas considerações: a consciência de que a tarefa era
interminável, a consciência de que era inútil. Pensou que na hora da morte não
havia acabo ainda de classificar todas as lembranças da infância.
Os
dois projetos que foi indicado (um vocabulário infinito para a série natural
dos números, um inútil catálogo mental de todas as imagens da lembrança) são
insensatos, mas revelam certa balbuciante grandeza. Nos deixam
vislumbrar ou inferir o vertiginoso mundo de Funes. Este, não o
esqueçamos, era quase incapaz de idéias gerais, platônicas. Não apenas lhe
custava compreender que o símbolo genérico cão abarcava tantos
indivíduos díspares de diversos tamanhos e diversa forma; perturbava-lhe que o
cão das três e catorze (visto de perfil) tivesse o mesmo nome que o cão das
três e quatro (visto de frente). Sua própria face no espelho, suas próprias
mãos, surpreendiam-no cada vez. Comenta Swift que o imperador de Lilliputdiscernia
o movimento do ponteiro dos minutos; Funes discernia continuamente os
avanços tranqüilos da corrupção, das cáries, da fatiga. Notava os progressos da
morte, da umidade. Era o solitário e lúcido espectador de um mundo multiforme,
instantâneo e quase intolerantemente preciso. Babilônia, Londres e
Nova York têm preenchido com feroz esplendor a imaginação dos homens; ninguém,
em suas torres populosas ou em suas avenidas urgentes, sentira o calor e a
pressão de uma realidade tão infatigável como a que dia e noite convergia sobre
o infeliz Ireneo, em seu pobre subúrbio sulamericano. Era-llhe muito
difícil dormir. Dormir é distrair-se do mundo; Funes, de costas na cama,
na sombra, figurava a si mesmo cada rachadura e cada moldura das casas
distintas que o redoavam. (Repito que o menos importante das suas
lembranças era mais minucioso e mais vivo que nossa percepção de um gozo físico
ou de um tormento físico). Em direção ao leste, em um trecho nãopavimentado, havia
casas novas, desconhecidas. Funes as imaginava negras, compactas,
feitas de treva homogênea; nessa direção virava o rosto para dormir. Também era
seu costume imaginar-se no fundo do rio, mexido e anulado pela corrente.
Havia
aprendido sem esforço o inglês, o francês, o português, o latim. Suspeito,
contudo, que não era muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é
generalizar, abstrair. No mundo abarrotado de Funes não havia senão
detalhes, quase imediatos.
A
receosa claridade da madrugada entrou pelo pátio de terra.
Então
vi a face da voz que toda a noite havia falado. Ireneo tinha dezenove
anos; havia nascido em 1868; pareceu-me tão monumental como o bronze, mais
antigo que o Egito, anterior às profecias e às pirâmides. Pensei que cada uma
das minhas palavras (que cada um dos meus gestos) perduraria em sua implacável
memória; entorpeceu-me o temor de multiplicar trejeitos inúteis.
Ireneo Funes morreu
em 1889, de uma congestão pulmonar.
Tradução
de Marco Antonio Franciotti
(in Jorge
Luis Borges: Prosa Completa, Barcelona: Ed. Bruguera, 1979, vol. 1., pgs.
477-484).
domingo, 8 de outubro de 2017
Te quiero - Mario Benedetti
"si te quiero es porque sos
mi amor mi cómplice y todo
y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos"
mi amor mi cómplice y todo
y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos"
segunda-feira, 2 de outubro de 2017
A Terceira Margem do Rio
Guimarães Rosa
Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e
menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a
informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais
triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem
regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se
deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.
Era a sério. Encomendou a canoa
especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para
caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e
arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta
anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes
não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não
dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto
de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de
não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a
canoa ficou pronta.
Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a
gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma
recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu
somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — "Cê vai, ocê fique,
você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim,
me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas
obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito
perguntei: — "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só
retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás.
Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na
canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por
igual, feito um jacaré, comprida longa.
Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido
a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do
rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais.
A estranheza dessa verdade deu para. estarrecer de todo a gente. Aquilo que não
havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram,
tomaram juntamente conselho.
Nossa mãe, vergonhosa, se portou com
muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam
falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de
promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia
doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e
longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas
— passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda —
descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de
dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então,
pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que
tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava
s'embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se
arrependia, por uma vez, para casa.
No que num engano. Eu mesmo cumpria de
trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a idéia que senti, logo
na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em
beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava.
Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas.
Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim,
ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu,
não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de
pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso,
que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que
nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de não saber; ela mesma deixava,
facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se
demonstrava.
Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para
auxiliar na fazenda e nos negócios. Mandou vir o mestre, para nós, os meninos.
Incumbiu ao padre que um dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar
e clamar a nosso pai o 'dever de desistir da tristonha teima. De outra, por
arranjo dela, para medo, vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de nada.
Nosso pai passava ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar
ninguém se chegar à pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens
do jornal, que trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não
venceram: nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no
brejão, de léguas, que há, por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a
palmos, a escuridão, daquele.
A gente teve de se acostumar com aquilo.
Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade.
Tiro por mim, que, no que queria, e no que não queria, só com nosso pai me
achava: assunto que jogava para trás meus pensamentos. O severo que era, de não
se entender, de maneira nenhuma, como ele agüentava. De dia e de noite, com sol
ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem
arrumo, só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os
anos — sem fazer conta do se-ir do viver. Não pojava em nenhuma das duas
beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou mais em chão nem capim. Por
certo, ao menos, que, para dormir seu tanto, ele fizesse amarração da canoa, em
alguma ponta-de-ilha, no esconso. Mas não armava um foguinho em praia, nem
dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um fósforo. O que consumia de
comer, era só um quase; mesmo do que a gente depositava, no entre as raízes da
gameleira, ou na lapinha de pedra do barranco, ele recolhia pouco, nem o
bastável. Não adoecia? E a constante força dos braços, para ter tento na canoa,
resistido, mesmo na demasia das enchentes, no subimento, aí quando no lanço da
correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso, aqueles corpos de bichos mortos
e paus-de-árvore descendo — de espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra,
com pessoa alguma. Nós, também, não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de
nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que
esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo
de outros sobressaltos.
Minha irmã se casou; nossa mãe não quis
festa. A gente imaginava nele, quando se comia uma comida mais gostosa; assim
como, no gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de muita chuva, fria,
forte, nosso pai só com a mão e uma cabaça para ir esvaziando a canoa da água
do temporal. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais
parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de
unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com o aspecto de
bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de
tempos em tempos fornecia.
Nem queria saber de nós; não tinha
afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por
causa de algum meu bom procedimento, eu falava: — "Foi pai que um dia me
ensinou a fazer assim..."; o que não era o certo, exato; mas, que era
mentira por verdade. Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber
da gente, por que, então, não subia ou descia o rio, para outras paragens,
longe, no não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela
mesma entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco,
foi num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do
casamento, ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para
defender os dois, o guarda-sol. A gente chamou, esperou. Nosso pai não
apareceu. Minha irmã chorou, nós todos aí choramos, abraçados.
Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu irmão resolveu e se
foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos. Nossa
mãe terminou indo também, de uma vez, residir com minha irmã, ela estava
envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca podia querer me casar. Eu
permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai carecia de mim, eu sei — na
vagação, no rio no ermo — sem dar razão de seu feito. Seja que, quando eu quis
mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que constava que nosso pai,
alguma vez, tivesse revelado a explicação, ao homem que para ele aprontara a
canoa. Mas, agora, esse homem já tinha morrido, ninguém soubesse, fizesse
recordação, de nada mais. Só as falsas conversas, sem senso, como por ocasião,
no começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não estiavam,
todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem
Noé, que, por tanto, a canoa ele tinha antecipado; pois agora me entrelembro.
Meu pai, eu não podia malsinar. E apontavam já em mim uns primeiros cabelos
brancos.
Sou homem de tristes palavras. De que
era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o
rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o começo de velhice — esta
vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo,
cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais.
De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a
canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se
despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o
fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha
tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro.
Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia.
Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se
falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido.
Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o
aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele
apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de grito.
Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive
que reforçar a voz: — "Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto...
Agora, o senhor vem, não carece mais... O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando
que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!..."
E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.
Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou
remo n'água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente:
porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o
primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia... Por pavor,
arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento
desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou
pedindo, pedindo, pedindo um perdão.
Sofri o grave frio dos medos, adoeci.
Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que
não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a
vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem
em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára,
de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.
Texto extraído do livro "Primeiras Estórias", Editora Nova Fronteira
- Rio de Janeiro, 1988, pág. 32, cuja compra e leitura recomendamos.
quarta-feira, 27 de setembro de 2017
Eugênio de Andrade
O acto poético é o empenho total do ser
para a sua revelação. Este fogo de conhecimento, que é também fogo de amor, em
que o poeta se exalta e consome, é a sua moral. E não há outra. Nesse mergulho
do homem nas suas águas mais silenciadas, o que vem à tona é tanto uma
singularidade como uma pluralidade. Mas, curiosamente, o espírito humano atenta
mais facilmente nas diferenças que nas semelhanças, esquecendo-se, e é Goethe
quem o lembra, que o particular e o universal coincidem, e assim a palavra do
poeta, tão fiel ao homem, acaba por ser palavra de escândalo no seio do próprio
homem. Na verdade, ele nega onde outros afirmam, desoculta o que outros
escondem, ousa amar o que outros nem sequer são capazes de imaginar. Palavra
de aflição mesmo quando luminosa, de desejo apesar de serena, rumorosa até
quando nos diz o silêncio, pois esse ser sedento de ser, que é o poeta, tem a
nostalgia da unidade, e o que procura é uma reconciliação, uma suprema
harmonia entre luz e sombra, presença e ausência, plenitude e carência.
Essa revelação do poeta, e dos outros com ele, essa descida ao coração da alma, de que Heráclito encontrou a fórmula, essa coragem de mostrar o que achou no caminho - e nunca é fácil, nem alegre, nem irresponsável revelar o que se encontrou ou sonhou nas galerias da alma - é o que chamarei agora dignidade do poeta, e com ele a do homem. Porque é sempre de dignidade que se trata quando alguém dá a ver o que viu, por mais fascinante ou intolerável que seja o achado.
«O futuro do homem é o homem», estamos de acordo. Mas o homem do nosso futuro não nos interessa desfigurado. Este animal triste que nos habita há milhares de anos, cujas possibilidades estamos tão longe de conhecer, é o fruto de uma desfiguração - acção de uma cultura mais interessada em ocultar ao homem o seu rosto do que em trazê-lo, belo e tenebroso, à luz limpa do dia. É contra a ausência do homem no homem que a palavra do poeta se insurge, é contra esta amputação no corpo vivo da vida que o poeta se rebela. E se ousa «cantar no suplício» é porque não quer morrer sem se olhar nos seus próprios olhos, e reconhecer-se, e detestar-se, ou amar-se, se for caso disso, no que não creio. De Homero a São João da Cruz, de Virgílio a Alexandre Blok, de Li Po a William Blake, de Bashô a Cavafy, a ambição maior do fazer poético foi sempre a mesma: Ecce Homo, parece dizer cada poema. Eis o homem, eis o seu efémero rosto feito de milhares e milhares de rostos, todos eles esplendidamente respirando na terra, nenhum superior a outro, separados por mil e uma diferenças, unidos por mil e uma coisas comuns, semelhantes e distintos, parecidos todos e contudo cada um deles único, solitário, desamparado. É a tal rosto que cada poeta está religado. A sua rebeldia é em nome dessa fidelidade. Fidelidade ao homem e à sua lúcida esperança de sê-lo inteiramente; fidelidade à terra onde mergulha as raízes mais fundas; fidelidade à palavra que no homem é capaz da verdade última do sangue, que é também verdade da alma.
Eugénio de Andrade In: Poesia e prosa [1940-1986], 3º vol. Lisboa: Círculo de Leitores, 1987
Essa revelação do poeta, e dos outros com ele, essa descida ao coração da alma, de que Heráclito encontrou a fórmula, essa coragem de mostrar o que achou no caminho - e nunca é fácil, nem alegre, nem irresponsável revelar o que se encontrou ou sonhou nas galerias da alma - é o que chamarei agora dignidade do poeta, e com ele a do homem. Porque é sempre de dignidade que se trata quando alguém dá a ver o que viu, por mais fascinante ou intolerável que seja o achado.
«O futuro do homem é o homem», estamos de acordo. Mas o homem do nosso futuro não nos interessa desfigurado. Este animal triste que nos habita há milhares de anos, cujas possibilidades estamos tão longe de conhecer, é o fruto de uma desfiguração - acção de uma cultura mais interessada em ocultar ao homem o seu rosto do que em trazê-lo, belo e tenebroso, à luz limpa do dia. É contra a ausência do homem no homem que a palavra do poeta se insurge, é contra esta amputação no corpo vivo da vida que o poeta se rebela. E se ousa «cantar no suplício» é porque não quer morrer sem se olhar nos seus próprios olhos, e reconhecer-se, e detestar-se, ou amar-se, se for caso disso, no que não creio. De Homero a São João da Cruz, de Virgílio a Alexandre Blok, de Li Po a William Blake, de Bashô a Cavafy, a ambição maior do fazer poético foi sempre a mesma: Ecce Homo, parece dizer cada poema. Eis o homem, eis o seu efémero rosto feito de milhares e milhares de rostos, todos eles esplendidamente respirando na terra, nenhum superior a outro, separados por mil e uma diferenças, unidos por mil e uma coisas comuns, semelhantes e distintos, parecidos todos e contudo cada um deles único, solitário, desamparado. É a tal rosto que cada poeta está religado. A sua rebeldia é em nome dessa fidelidade. Fidelidade ao homem e à sua lúcida esperança de sê-lo inteiramente; fidelidade à terra onde mergulha as raízes mais fundas; fidelidade à palavra que no homem é capaz da verdade última do sangue, que é também verdade da alma.
Eugénio de Andrade In: Poesia e prosa [1940-1986], 3º vol. Lisboa: Círculo de Leitores, 1987
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